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Darío Salas Sommer

Leia a transcrição textual de uma das mais de 2.000 conferências dada por Darío Salas Sommer para todos os sócios do mundo do Instituto Filosófico Hermético.


CONFERENCIA DE FILOSOFIA HERMETICA
Darío Salas Sommer
(transcrição textual de conferência oral)

Tema central: O progresso Espiritual

Alguns dos outros temas tratados:

  • O esforço.
  • As metas.
  • Compreender e analisar a própia vida.


Sempre tenho destacado o chocante que resulta essa característica do ser humano de saber algo e não o assumir, saber algo mas não actuar consequentemente  com o que sabe; ou seja, como as pessoas assumem certas verdades de forma teórica  e dizem: “Sim eu estou de acordo com isso, eu creio nisso, sei que isso é dessa maneira”, mas vivem como se isso fosse falso, actuam como se isso fosse falso, e os seus sentimentos comuns correspondem à falsidade  daquilo que afirmam aceitar. É como saber algo e não inteirar-se do que se sabe, é como … recordam-se quando dissemos, uma vez, a diferença que há em saber que estamos do lado de fora de uma esfera no espaço? …! Que diferente é sabê-lo, a assumi-lo! Então, eu disse uma vez que se esta pessoa o assume de verdade num momento, é capaz de lhe dar náuseas nesse mesmo momento!; ou seja, que se sinta doente ao assumir nesse instante que estamos, quem sabe de cabeça para baixo … bom no espaço perde-se o que é acima ou em baixo. Poderíamos dizer que tudo é em baixo, não é certo? Ou seja, no fundo, ao melhor estamos de cabeça para baixo, com os pés postos na terra, e a cabeça para baixo sobre uma esfera no espaço. Já viram situação mais chocante que isso? É bastante chocante, não é certo? Mas, como que não pensamos nisso. O sabemos, não o ignoramos. Para que seja mais chocante todavia: somos macacos, somos simios todos. Convém uma vez mais recordar um livro a que me referi muitas vezes e que é interessante relê-lo de vez em quando: “O macaco nu”, de Desmán Morris, porque aí como que um recorda. Bom, e quem ignora que somos simios? … ninguém o ignora. Fizeram-se películas do planeta dos simios onde se deixa ver isso claramente, mas quem actua como se fossêmos simios? Ninguém, ou por último quem o tem presente na sua mente? Ninguém.

Então acontece que muitas, muitas vezes a gente se desalenta com o trabalho espiritual, porque encontra difícil avaliar o progresso, avaliar as mudanças. Ao começo as mudanças são muito notórias, e por outro lado, parecesse que ao princípio as mudanças são muito rápidas, e o que acontece é que há muito contraste. A pessoa esteve toda a sua vida anterior submetida à inércia, e de repente, começa a mover-se por si só; começa a ter mais capacidade de auto-domínio; mais capacidade de fazer coisas novas. A pessoa torna-se mais livre, mais criativa, mais autónoma, e isso está tão próximo da sua experiência anterior que parece uma mudança muito, muito importante ou bastante notória. Depois a pessoa vai ficando mais sofisticada, por falta de claridade nas metas. É muito importante para o estudante de hermetismo colocar-se metas transitórias. As metas transitórias são importantissimas, porque a meta definitiva, a meta mais importante … digamos … está tão longe, que a pessoa nunca se vai dar conta claramente em que medida se aproxima ou não dessa meta. Para isso, para poder dar-se conta da própria mudança, há que pôr-se metas mais bem modestas num começo, mas concretas, que se refiram a coisas que um pode fazer neste momento, coisas que não maneja e que um se propõe manejá-las. De facto, seria muito são que cada pessoa que entra na escola fizesse uma análise de quais  são os seus problemas nesse momento, quais são as suas carências, como se sente, que é o que deseja conseguir; porque se alguém diz: “já, eu quero aperfeiçoar-me espiritualmente”. Está bem claro, essa é a meta total, a meta geral, o caminho. Mas, o que está envolvido nisso, que é o que a pessoa pensa que forma parte dessa perfeição espiritual? Então alguém vai querer, por exemplo , vencer certas carências, um tipo pode ser tímido, outro pode ser um pouco narcisista, outro pode ser irresponsável, outro pode sentir que é frouxo, e que são coisas importantes. Então o tipo deve anotar isso e colocar-se como meta transitória ou provisória, deixar de ser frouxo, supunhamos, vencer a irresponsabilidade, ou deixar de ser narciso.

Mais que isso, se o tipo, suponhamos, anota como uma meta provisória transitória o deixar de ser narciso, que anote: como o afecta o narcisismo neste momento; como o afecta na sua vida, em que o prejudica; como o prejudica, qual é a extenção do problema, que coisa o impede de o fazer; qual é a sensação emocional que lhe deixa isso; quanto tempo lhe tira; quanta energia lhe tira; porque, ao melhor vai passar muito tempo, e não vai poder vencer o problema totalmente, e poderia dizer: “fracassei, porque não venci o narcisismo”.

Mas, resulta que se a pessoa analisa com calma vai encontrar que desapareceram metade dos sintomas negativos que lhe produzia o narcisismo, e então sim existiu um progresso.

A gente tende a esquecer-se muito facilmente de como era antes; esse é o  problema que têm todos os psiquiatras e psicólogos com os seus pacientes. As pessoas chegam aí em más condições de repente e depois de um tempo dizem. “eu não tive nenhum progresso, sinto que não progredi nada”. Porque, essa sensação de não progresso é muito simples, tudo o que é lento produz a impressão de que não há mudança, porque é muito, muito paulatino; mas, se essa mesma mudança fosse brusca,  a pessoa experimentaria  como que um terramoto, possivelmente. É o mesmo como se aqui começassemos a baixar a temperatura; imaginemos que esta conferência dura dez horas, fossêmos estar aqui dez horas, e começassemos a baixar a temperatura meio grau por hora. Quando terminássemos  a conferência nem sequer daríamos conta provavelmente  que baixou a temperatura, estaríamos acostumados; mas se baixamos cinco graus de um golpe todos nós vamos dar conta. Então, eu lhes peço, lhes sugiro, a todas as pessoas que estão anos na escola, que se recordem como eram, se recordam que alguns eram como passaritos quando chegaram à escola, passaritos com o sentido de uma ingenuidade espantosa; passaritos  com o sentido de “voados”; passaritos com o sentido de que viviam no mundo de “Bilz e Pap”, a sua realidade era do mundo de “Bilz e Pap”.

Então há que anotar essas mudanças, há que assumir as mudanças, dar-se conta e agradece-las, agradece-las ao próprio trabalho, e agradecer ao poder supremo, ao poder supremo que é o que permite em última instância que as pessoas possam efectuar este tipo de realizações. É muito importante o sentir que um tem feito coisas importantes, e que as tem, que pertencem a um, que são capacidades que  um desenvolveu, e que não as vai perder jamais. Então o trabalho espiritual como que toma outra dimensão. A pessoa quando tem presente o que alcançou, por natureza vai andar sempre mais harmónica, mais positiva, com um atitude muito melhor. Mas há outros, que o único que vêm é o que lhes falta, e, naturalmente, as pessoas que vêm o que lhes falta andam descontentes. É como o antigo dito onde se apresenta a uma pessoa um copo de água cheio até metade e lhe dizem: “que é o que vês aí?”. Então algumas respondem: “ um copo meio vazio”, e outros “um copo meio cheio”. Fixem-se, é uma coisa instintiva. Isso mostra as abordagens das pessoas.

Ao assumir, ao dar-se conta do avanço, ao compreender  que isso envolve o desenvolver de capacidades que estão à disposição de um, a pessoa não pode, digamo-lo asssim, pôr-se negativa. Não pode queixar-se de que não faz coisas. Está nas suas mãos fazê-las. Eu creio que o que mais “lhe rebenta” às pessoas em todo o mundo é que lhe digam porque não fazem o que querem se isso está em suas mãos. Dá-lhes uma raiva espantosa, porque creio que se volta à infância, e é como se pedissem dinheiro ao papá para ir comprar chocolates, e o papá lhes dissesse: “bom, mas isso é coisa tua, ganha o dinheiro, vai  trabalhar, que sei eu?, tu verás como o fazes”. A gente não gosta disso,  se chateia. A gente gosta de ter alguma desculpa que justifique a sua falta de esforço, a sua falta de entrega, a sua falta de dedicação as suas próprias metas. Porque, enquanto a situação económica esteja difícil num país, naturalmente que um tipo não tem de sentir-se envergonhado, não tem por que se caia a auto-estima se lhe vai mal. Então, o tipo se tranquiliza, mas o certo é que de igual forma o tipo podia triunfar nas coisas que deseja se de verdade se propõe a isso, mas as pessoas não têm esta visão de que sim, se pode. É possível ter o que um quer se trabalha o suficiente, se se entrega o suficiente, e o faz com a devida impecabilidade.

Há um programa de televisão muito estúpido, muito “snob”, mas que dentro de todo esse “snobismo” há uma lição muito interessante. Chama-se algo assim como “viajando com os ricos e famosos”, “a vida dos ricos e dos famosos”, ou algo assim; outro dia tive oportunidade de vê-lo na televisão, e saíam casos interessantissimos. Saía  um tipo da Guatemala que era um bêbado, mas um bêbado pobre, não um bêbado rico, ou seja um bêbado como o que podemos ver em  qualquer cantina  pobre aquí como nós, do povo. E esse tipo de algum modo, o desespero ou que sei eu, o levou a pensar em como ganhar dinheiro e se lhe ocorreu começar a fabricar run, e converteu-se no rei do run e é um dos homens mais ricos da Guatemala. Mostravam que tem quarenta cavalos andaluzes, cada cavalo avaliado em 350.000 dólares; uma das casas maiores  da Guatemala, muito charmosa, e a sua família vive em outras quatro manções num condomínio nas montanhas. Então, há gente que se em algum momento crê em algo, tira os travões por algum motivo. Saiu o caso também de Oleff Casini, o célebre costureiro russo de origem da época, filho de uma família rica na Rússia, mas que perderam tudo num dado momento e que chegou aos Estados Unidos sem um cêntimo. E começou  a mover-se muito bem, e terminou casando-se com uma artista da sua época que era muito famosa, chamada Jean Tierney; depois esteve noivo de Grace Kelly, foi o costureiro de Jacqueline Kennedy, e começou a mover-se em esferas muito altas. Bom, o tipo tem uma mansão de trinta e cinco compartimentos, com salões de mármore, com todas as decorações trazidas de Itália, mármore italiano, fantástico! Gente que não tinha nada, não tinha um cêntimo. Então, é possível, mas que têm essas pessoas que outros não têm? Oleff Casini, entre outras coisas, tem neste momento 80 anos segundo dizia aí, não sei se a película foi filmada há pouco ou é antiga: quando falam deste momento pode ser dez anos atrás. Quem sabe, mas, neste momento com 80 anos Oleff Casini competia em corridas de cavalo. Ele competia e terminava ganhando uma corrida. Então perguntam-lhe a razão do seu êxito e ele diz: “eu creio que a razão do meu êxito é a energia que eu coloquei em tudo, sempre.  Ainda que não soubesse algo, tratei de pôr toda a minha energia e fazer o melhor possível com o maior  dos entusiasmos e pôr tudo da minha parte” . Então eu lhes pergunto. Se vocês fazem isso, se não fazem isso sendo hermetistas; então, um tipo de fora o está a fazer melhor, ou o fez muito melhor que vocês. Se o faz um tipo de fora, com muita maior razão poderiam fazê-lo vocês.

Depois, chama a atenção como em outros países há gente tão rica que não são empresários nem muito menos. Sai o caso de um cómico, por exemplo, nesta mesma série, não me lembro do nome. Um tipo bem pouco conhecido, que é tão importante nos Estados Unidos que todos os políticos tratam de estar bem com ele, para que não se vão fazer partidas muito pesadas sobre eles nos seus programas, e o tipo é imitador somente, imitador e conta piadas. Vive só numa casa maravillosa de dezasseis compartimentos com vários acres de terreno. Fabuloso. Então ganhou-o imitando, imitando a vocês, sendo cómico, mas como o fez? … porque é gente que se entrega a cem por cento ao que faz. Mostravam ao tipo, por exemplo, como prepara os seus actos. Tem películas das pessoas às quais quer imitar, e então tem um salão fabuloso em sua casa com um home theather, esses écrans de televisão muito grandes, onde vê as pessoas, escuta-as a falar e repete, repete, repete uma e outra vez a forma de falar, até que consegue imitá-los bem. Então, a entrega das pessoas, o compromisso com o que fazem. Mas nós os latinos não estamos acostumados a isso; o conceito é “já pois, trabalhar tantas horas e depois descansar, e depois de descansar sair para férias, depois fazer “Santo Lunes” e depois seguir, mas seguir de forma não demasiado sacrificada. Ou seja fazer-lhe empenho, mas bom, e o que é que se passa, é difícil que no Chile uma pessoa morra de fome; nem ainda entre a gente mais modesta, sempre há alguém que o acolhe, algum parente que o acolhe. Alguém pode esta na rua, mas alguém o acolhe sempre. Em outros países ninguém os acolhe. Ninguém. Em outros países ninguém os convida a jantar ou a comer em suas casas, por exemplo, ninguém. Isso é um costume “chilensis”. È muito raro que noutros paises o convidem a comer em casa de uma pessoa; a convidá-lo, o convidam a um restaurante. Noutras partes … bom … há um dito noutros países que se um automóvel atropela um cão chegam dez pessoas a recolher o cão e a salvá-lo, mas se cai uma velha, a pisam e não a recolhe ninguém.

Na época dos hippies. Digo na época dos hippies, porque agora já não há hippies. Os hipies de EE.UU., por exemplo, diferenciavam-se notavelmente dos do resto do mundo … pelo menos, dos hippies latinos. Os hippies latinos todos gorditos, os hippies americanos cadavéricos. Como se explica que um hippie tenha sido gordito? … sempre havia uma tia, uma avozita por trás, algum parente, algum amigo, alguém. Mas noutros países não existe isso. Fixem-se, (…) que fazem os pais chilenos?, os pais latinos … “proteger à menina e ao menino”, ou seja cuidá-lo, que não saia a tal hora, que não lhe passe isto,  que não mais aquí: sempre protegendo: “A minha filhinha, se você se casa e lhe vai mal, não importa que tenha 40 anos, volte a nossa casa sempre, esta é a sua casa”. Enfim, e que sei eu. Em Nova York a maioria dos estudantes universitários foram-se embora de casa faz anos, e pagam a universidade com os seus estudos, são moços de restaurante, trabalham de noite e estudam de dia, ou de alguma forma   arranjam-se, mas fazem as duas coisas, mantêm-se a eles mesmos. Há jovens que se vão, ou meninos se quiserem dizê-lo, se vão aos 14 anos de casa nos Estados Unidos, e vêm a casa dos pais às vezes. Voltam a vê-los quando têm 25 anos de repente, se é que os veêm. Isso, a nós nos parece muito chocante. Há uma sobre-protecção até aos filhos, até aos meninos, cada qual se sente especial, o menino  vai pedir ao mundo o mesmo que os pais lhe dão, … uma atitude parecida. De facto os meninos malcriados, aqui lhes dizem “avôs”. Enquanto mais malcriados, mais avós ou vovós, não é certo?, mal criados pela avozita significa isso. Mas eu creio que a expressão se aplica a qualquer malcriado, tenha sido pela avozita, pelos papás, pelo sistema, por quem seja; então o “avô” vai pedir ao mundo um tratamento igual ao que lhe deram os seus pais ou a sua avozita, vai sentir-se um privilegiado, vai sentir-se especial, distinto, não vai saber o que significa pôr-se, sair ao mercado. Que significa sair ao mercado?: produzir valores transáveis no mercado. Porque lhes apareceu outro olho na cabeça a todos? … ponto cego parece isto. Produzir valores transáveis no mercado. Fixem-se, há médicos, por exemplo, que são simplesmente médicos e ganham 300.000 pesos mensais, depois e terem estudado tantos anos; há outros médicos que produzem valores transáveis de alta monta e que ganham 5, 6, 7 ou 10.000.000 de pesos mensais. Mas à gente que não gosta de sair ao mercado, a gente quer que o Estado os proteja. Sair ao mercado, o repito significa produzir um mesmo algum tipo de valor que a gente necessite, e pelo qual estejam dispostos  a pagar o preço. Ou que a gente esteja disposta a pagar por algo indica que esse é um valor transável e que efectivamente é algo valioso. Isso o faz no só um industrial, um empresário, mas sim o faz todo o professional ou toda a pessoa que trabalha numa ocupação lucrativa.  Quando uma  pessoa não ganha muito é porque, os valores que está produzindo não têm muita procura, há demasiada oferta. Se eu esperava ganhar dinheiro carregando sacos, por exemplo, de carregador de camiões, naturalmente que sei que teria que ganhar muito pouco porque, há demasiada oferta, são muitos os carregadores de camiões e o que ganham é muito pouco. Mas, se eu pudesse descubrir um sistema para carregar um camião num terço do tempo em que se carrega normalmente, ao melhor, poderia cobrar bastante caro por isso. Porquê? … porque, significaria uma economia de tempo aos donos dos camiões.

Espiritualmente é o mesmo, o avanço de vocês comparem-no com o que ganha uma pesoa.  De facto nos rituais primitivos da maçonaria do Irão  - a maçonaria do Irão era hermética, era a verdadeira maçonaria hermética  -  falava-se, que se usava uma expressão que persiste, persistiu, ficou até aos nossos dias em alguns rituais maçónicos, onde se falava de um salário, de maneira que aos que integram uma loja se denominam obreiros. Obreiros porque, a maçonaria iniciou-se como uma corporação construtora de construtores. Então, quando terminava uma reunião maçónica na antiguidade, se falava dos obreiros que recebiam um salário. Uma expressão muito hermética, muito interessante, porque é o que se passa aquí no instituto. Todos recebem um salário. Esse salário é o que recebem da natureza pelo trabalho interno que vocês mesmos fazem, dependendo das valores que vocês produzam assim vai ser o salário que vão receber da natureza, e se existe simulação no trabalho, o salário  pode ser nulo. Ainda mais a natureza pode no só não pagar nada, senão que, cobrar mais ainda por cima; se a pessoa actua mal, incorrectamente, a mesma coisa. Então, se um quer progredir espiritualmente, tem que por-se no mercado também, é o mesmo que produzir valores em qualquer coisa, com a diferença que estes valores são os que identificam tradicionalmente ao que deve ser uma pessoa espiritual; o domínio de si mesma, em que medida se auto-controlam vocês; a modéstia, em que medida venceram a importância pessoal; o estado de vigília, em que medida andam passareando no dia. Eu creio que quando passareiam mais é antes da conferência não? … vocês vieram nos twitters antes da conferência. È impressionante às vezes, esquecem-se onde estão, entusiasmam-se tanto a conversar que é divertido olhar de fora. Eu sempre os venho a espiar antes da conferência. Não dão conta vocês, mas voam totalmente; em que medida controlam as emoções; em que medida se limparam internamente. Todos esses valores espirituais. Em que  medida conseguem vencer as suas  próprias paixões. Então todas essas coisas constituem os valores pelos quais a natureza dá um salário, e esse salário é o progresso, o reconhecimento, o progresso espiritual da pessoa, a hierárquia espiritual da cada qual. Eu estou a falar de coisas muito concretas não é certo? … isto não são voadas, são coisas mas super concretas; é o nível de vigília de uma pessoa, que eu saiba, não há instrumentos  para medi-lo, mas não é difícil fazê-lo. O que se passa é que para que alguém lhe interesse fazer um instrumento desses teria que despertar primeiro e aos despertos não lhes interessa trabalhar nisso, fazem outras coisas; mas não creio que seja necessária muita, demasiada ciência e investigação para fabricar um instrumento que meça o nível de vigília; tampouco se faz porque, não é rentável. Então que coisa mais concreta que o nível de alerta das pessoas.

Falamos disto, e é fácil dar-se conta que a maioría das vezes a pessoa anda plana no dia, como dizem “down”, ou seja, como metida numa espécie de marmelada mental não é certo?; ou como se tivesse a cabeça metida dentro duma chicle,  assim como tardes de sesta no trópico depois de duas pina coladas e um bom almoço. Então, naturalmente a pessoa anda com a sua mente nublada da realidade tal como esta é. Depois, a medida na qual a pessoa consegue fazer-se por um lado a si mesma na sua forma de captar a realidade, no seu estilo de captar a realidade. O nosso instrumento de conhecimento tem que funcionar de tal maneira como para que evitemos projectar-nos, e isto é evitável por meio disto a que chamamos a impessoalidade. Fixem-se que vocês podem fazer a experiência  que lhes vai permitir vislumbrar que isto é possível, ou seja, não é que o vão fazer mas algo vão sentir, vão a vislumbrar. Imaginen-se pela noite antes de se deitarem que vocês não são pessoas, não são seres humanos, mas sim que se convertem em pura energia. Vocês não sabem porque me rio … por uma coisa bem tonta mas não importa, eu estou super bem aquí, porque se passam coisas divertidas. Digo pura energia, iah … uns quantos estão agora nesse momento que digo, ou seja é justamente o tempo de bocejo de uns quantos! Bom, imaginen-se antes de adormecer que são pura energia, que não têm corpo físico, que são como uma energia gasosa, como uma nuvem de energia, e que esta nuvem de energia começa a afastar-se do planeta terra, e sobe, sobe, sobe e fica no espaço aí. E desde o espaço, sem nenhum interesse pessoal, sem nenhum interesse humano, despersonalizados totais, sendo pura energia, mas energia inteligente, olham a terra, observam o mundo, observam os acontecimentos e opinam. Façam-no esta noite.

Por isso que são tão importantes o que chamamos as prácticas ascéticas, os sacrificios mediante os quais da pessoa se dissocia do corpo físico, ao que eu chamo desdobramento hermético; o desdobramento hermético que é o autêntico desdobramento. O outro, esse de sair  a voar no duplo etérico são contos para crianças; é possível fazê-lo, mas não tem nenhuma utilidade salvo o ir espiar o vizinho. E o que consegue fazê-lo o vão castigar depois. Então tampouco tem nenhuma graça. O desdobramento hermético consiste em dissociar-se do corpo. Fixem-se, quando um homem não está dissociado do corpo, vai a passar uma mulher muito sexy e o tipo vai sentir certas coisas, mas se o tipo está dissociado do corpo poderá dizer: “iah!, que bonita a mulher”, e não vai sentir nada mais. Se o tipo está dissociado do corpo, ainda que faça três dias que não coma, poderá sentir o cheiro a comida, poderá ver manjares deliciosos, e não vai sentir nada, está dissociado do corpo, está por cima do corpo. A pessoa ao estar dissociada do corpo se desassocia também da personalidade, existe como pura energia e pode, portanto, pensar, reflexionar, meditar, sem se deixar influenciar pelos apetites do corpo, sem se deixar influenciar por interesses pessoais, porque nada disso existe nesse instante; a pessoa foi muito mais além do corpo, não tem nome, não tem identidade nesse instante, de certa forma se uniu ao todo ao universo, e está no todo.

Bom, então voltando às metas espirituais, muita gente pergunta: quando se chega à meta? … os mais ingénuos … em quantos anos se chega à meta? Bom … uns 4860 creio eu. Não, à meta não chega nunca, nunca. Por isso que Carlos Castañeda escreveu um livro que se chama viagem a Ixtlan onde ninguém entende porque nunca chegavam a Ixtlan, e falam de que não íam chegar nunca. Ixtlan é um símbolo da meta, que é a perfeição. Se chega a uma relativa perfeição, mas a pessoa sempre vai elevando a sua meta, é lógico. Ou seja, imaginem-se que a meta está a esta altura e o tipo se aproxima disto. Ao aproximar-se eleva a sua meta imediatamente, porque se amplia a sua capacidade conceitual; já o tipo encontra muito modesta a meta anterior, eleva o tecto e, … por favor … despertem bem neste instante para que compreendam isto. Se a pessoa eleva o tecto cada certo tempo, isso mesmo produz a sensação de não progresso. Sente que sempre está à mesma distância da meta, mas o que não sei dar conta é que a meta foi corrida várias vezes, já que, todo o tempo está correndo esse tecto, e então o tipo sente que todavía está muito longe e lhe parece ter progredido pouco. Não é assim, pois a meta já se correu muitas vezes.

Vivemos num universo infinito, por tanto,  a perfeição absoluta não existe, ou se existe não podemos defini-la. Só podemos aspirar a uma relativa perfeição. Essa relativa perfeição não tem fim, sempre vai continuar um processo de aperfeiçoamento cada vez maior, maior, maior. Até que algum dia, o indivíduo chegue a fundir-se com Deus e forme parte de Deus, volte à sua origem, ou  quem sabe, se especulássemos do ponto de vista da física, não do hermetismo, poderia chegar a ser um Deus de outro universo quem sabe, o equivalente de Deus num universo paralelo.

Creio que é tremendamente importante o definir na forma mais concreta possível o que é o avanço espiritual. Não tê-lo como algo difuso, como algo abstrato, como dizer: “progresso espiritual, que rico, que rico! … claro, sim, eu quero o progresso espiritual!”. Mas a pessoa imagina o progresso espiritual como alguém ao imaginar-se o céu, se supõe sentado ao lado de Deus, não é certo?, Deus, um ancião de barba branca sentado num trono, e o tipo a tocar uma arpa aí ao lado de Deus para toda a eternidade. Que aborrecido, ah!. Então, é importante definir o que é o progresso espiritual, ter palavras chave para defini-lo, frases chave, definições curtas, profundas. Não estejam à procura de copiar ao pé da letra ou que eu diga, meditem vocês sobre o que é o progresso espiritual, dêem-se conta da importância que têm determinados alcances. Por exemplo, somente o dominar-se a si mesmo, que uma pessoa consiga dominar-se a si mesma, que consiga dominar os seus impulsos, imaginem-se tudo o que é se quando uma pessoa sentisse um impulso instintivo de algo, de insultar a alguém, de pegar a alguém, ou de fazer algo, a pessoa tivesse a presença de ânimo para contar até cem primeiro, até cem, ou até trinta e seis mil, até … até o que seja. Para fazer isso é necessário ter controle de si mesmo, autodomínio, para inibir este impulso, não estou a falar de reprimir … inibir o impulso  até o analizar, pensá-lo, reflexionar se isto é bom, se é mau. Isso é actuar conscientemente; imaginem-se que um contudo poderia fazê-lo assim. Ao melhor, se um tivesse na vida tempo suficiente para tudo, cometeria menos erros, se a vida durasse quinhentos anos, se um para fazer o mesmo que faz normalmente em cinquenta anos, dispusesse de quinhentos anos. Lógico que teria muito mais tempo para que as decisões de um fossem mais terra a terra; mais profundas, menos posibilidades de equivocar-se. como eu disse, o tipo mais ignorante, masi estúpido do mundo, se vivesse quinhentos anos, poderia enganar a qualquer um depois, não é certo?.

Porquê é tão importante o definir em termos concretos o que é ser espiritual? Porque a pessoa tem de saber, ter presente em certa medida, a meta à qual aspira, o que é o que quer, o que é  o que quer em concreto, porque dizer “espiritual, eu quero ser espiritual”, … bom, e que é isso? Imagine-se um tipo que não fala espanhol, imaginemos um japonês ou a um chinês, dizemos-lhe que uma meta importante é “comer um bife à pobre”, e o tipo repete, “bife à pobre”; e ao melhor vive anos com a ilusão do “bife à pobre” e nem sequer sabe o que significa; cuidado!, porque para muitos de vocês  espiritualidade pode ser “bife à pobre”. Nem serque reflexionaram em termos concretos que coisa é realmente ser espiritual, o que é que um ganha, o que é que consegue, qual a vantagem disso. Obviamente, que na medida em que um dê importância a algo, que um valorize algo, que um descubra os valores de algo. Nâo é que um vá pôr as suas expectativas em algo que não é valioso, porque há duas possibiliades, há gente que pode pôr as suas crenças, as suas superstições em alguém, como se passava com “la Yamilet”, por exemplo, a menina milagrosa esta que havia no Chile, que tanta gente do povo falava e os milagros de “la Yamilet”, punham a sua fé nela, mas isso não é um valor em si do objecto, é um valor posto pela gente. Na medida em que nós descubramos o valor de algo, valorizemos algo, vamos a ter força para seguir pelo caminho que vamos, vai ser como uma contínua descoberta de um prémio. Por exemplo: quantas horas esperariam vocês para falar com uma visita, alguma pessoa importante que viesse ao Chile? … não sei que tipo de personalidade ou que tipo de pessoa lhes pode interessar a vocês, mas falemos de homens e mulheres, quantas horas esperariam as mulheres para falar com Brad Pitt?, algo assim, sim? … sabem as mulheres quem é Brad Pitt?, quantas horas esperaríam? Ou, quantas horas esperaríam os homens para falar com Cláudia Schiffer?. Bom, dá o mesmo quantas horas, mas suponhamos que vocês souberam de muita boa fonte e estavam totalmente seguros e souberam que concretamente Jesús está na terra de novo e vai estar um dia em tal parte, mas pode fazer-se esperar sessenta horas ou duzentas horas, mas não há que mover-se daí … quantas horas esatriam dispostos a esperar? .. o que seja, não é certo?, se tivessem a convicção, o que seja. Ao melhor esperariam até morrer de fome aí.

Por isso é tão importante descubrir a importância do hermetismo, descubrir quais são os seus valores, o que é que o hermetismo nos pode dar; ademais compreender que opções temos sem o caminho espiritual, fora do caminho espiritual, qual é o nosso destino fora do caminho espiritual, e isso é o que a gente não assume, As fantasias, as esperanças  da gente têm um só propósito: fazê-las crer que podem ser diferentes as suas vidas do que foram as vidas de outras pessoas. O certo é que sem o caminho espiritual a nossa vida é quase um sacrifício inútil, quase um viver para quê?: para procriar, para ganhar dinheiro, para comer, para consumir, divertir-se e nada mais. E depois morrer e não há mais, tudo isso com mil variantes; um tipo pode ter mais ou menos dinheiro, pode acumular maior ou menor quantidade de bens materiais, pode ser mais ou menos feliz na sua relação de casal, ter uma família mais ou menos numerosa, pode ser saudável, pode ser enfermo, mas sua vida vai ser a mesma, previsível, ou seja, cada dia é um dia menos. Espiritualmente, cada dia é um dia mais; é lógico. Fisicamente cada dia é um dia menos, espiritualmente cada dia é um dia mais, porque é um dia  mais de trabalho ao qual temos acrescentado a nossa capacidade espiritual. Quando uma pessoa tem claro isso, tem força, tem motivação. Tem de tê-lo tão claro, como pode ser a claridade de uma pessoa que está a morrer de sede perante o que seria um trago de água, uma garrafa com água bem gelada num dia de calor e que a pessoa esteja a morrer de sede. Mas, quê é o que se passa. Há momentos de lucidez, momentos em que a pessoa se tem esta certeza da qual eu lhes falo, momentos nos quais a pessoa vê claro isto, aprecia e diz: “isto, é tudo efectivamente, não há mais, aí está o caminho”. Mas, o mundo é um carrocel, à pessoa lhe durou isto enquanto conseguiu estar quieta internamente, e depois o carrocel segue girando, e então … que a televisão .. que as diversões, … que as vocações, … que isto, … que o outro, … que a casa, que todas as preocupações da vida diária, … que os filhos, … que a família, … que o dinheiro, … que as distintas obrigações. Então, já a pessoa vai com a maré e se embriaga. Se embriaga, e , logicamente, essa certeza que teve se opaca, se opaca e diminui, se volta plana, e a pessoa fica presa em fantasias. Fixem-se, de repente alguém pensava vir a uma conferência e não vem, então bom, que importa? … Faltou a uma conferência, dizemos, mas eu pergunto: o que fez a pessoa nesse dia? vai a aproximar-se do caminho espiritual ou vai ser um caminho que se afasta?, o mais provável. Há casos e casos naturalmente, uma pessoa pode não vir a uma conferência por uma força maior, porque tem que fazer algo realmente importante. Mas alguém pode não vir, porque ficou preso em algo que lhe pareceu divertido num dado momento, que lhe pareceu interessante e isso o prende noutra cadeia de circunstâncias. Nós avançamos na vida por cadeia de circunstâncias, uma coisa se encadeia com outra, a lei de causa e efeito é uma cadeia de circunstâncias e se nós num dado momento nos prendemos numa cadeia de ciscunstâncias distinta, suponhamos uma pessoa que diz: “já, vou fazer um curso”, que sei eu, de qualquer coisa, um curso de cozinha por dizer. Claro, pode ser muito útil isso, mas se a pessoa se descuida pode ser uma cadeia de circunstâncias que a leve num sentido distinto daquele  que pretende.

Às pessoas  que acham muito difícil o caminho espiritual, haveria que dizer-lhes: “que sorte, que bem que é difícil”. As coisas neste mundo pelo menos para a gente que deixou de ser ingénua, caracterizam-se ou dividem-se em dois tipos de coisas: as coisas difíceis e fáceis, as caras e as baratas. As coisas difíceis sempre são valiosas, não há nada fácil que seja valioso, tudo o que é fácil não vale. Saiam á rua vocês a recolher coisas. Vão recolher ouro em alguma parte por aí? …vão encontrar toda a classe de porcarias deitadas fora, não certo? … porque foram deitadas fora? … porque ninguém as queria, ninguém quer levá-las. Vão recolher no centro alguma carteira que caiu a alguém? … claro. Existe essa possibilidade entre não sei quantas; vão encontrar uma nota de cem dólares deixada por aí?, vão encontrar um lingote de ouro na rua? Não, não é certo.  que é o que há? … sabemos as imundíces que há na rua sempre, para que enumerá-las. Entrem em qualquer lugar, que é o mais provável que haja? … mau cheiro ou bem cheiro? … o mau cheiro abunda mais que o bom cheiro. Sempre nos damos conta que tudo o que requer mais organização, um nível de organização e de trabalho maior para existir, necessariamente é mais valioso e mais caro, evidentemente. Há umas figuras chinesas que são umas esferas de marfim que vão umas dentro das outras. Não me recordo quantas há, não sei se são trinta e seis partindo da haste externa da mais pequenita de dentro e um artesão, um só artesão trabalha entre três a cinco anos para fazer uma destas peças, não podem ser baratas, não é certo?  … cinco anos da sua vida. Pode haver imitações, algo que pareça marfim e se veja a bolita de fora e parece haver outras bolitas dentro e não as há, mas não tem  nada a ver, são duas coisas completamente distintas. É como o ouro ou o dourado, e esse é um dos problemas na vida, a gente não distingue entre o ouro e as coisas com cor de ouro. Todo o tempo as pessoas vêm algo e crêem que encontraram o ouro, e não pois, era cor de ouro não mais, e essa cor com o uso deteriora-se rapidamente e aparece ao melhor o metal oxidado debaixo; isto inclui às pessoas por suposto, às pessoas cor de ouro. De facto, o narcisismo é isso, querer ser da cor do ouro, para que?, para que aplaudam os porquitos com a sua maneira que já lha conhecemos. Nunca pude entender aos seres humanos, porque gostam do aplauso; encontro rara, definitivamente rara a gente; eu sei que a mim me acham muito raro, mas eu encontro mais rara à gente. Por último, se fosse o apluso de alguma pessoa importante, o aplauso de algum sábio, alguma pessoa realmente significativa, por último, mas nem sequer isso. O único que nos importa é a aprovação da natureza; se a natureza nos aprova, estamos do outro lado, podemos sentir-nos realizados e a natureza vai aprovar sempre tudo o que nós façamos de forma honesta … se somos honestos, transparentes, a natureza vai-nos aprovar. A gente se enreda sempre então na vida com isto de coisas fáceis, as promessas fáceis, dinheiro fácil, amor fácil, coisa fácil. Persegue metas muito curtas. Como que se perdeu isso de procurar coisas que não importa o tempo que durem, mas são tão importantes.

Com o hermetismo, por exemplo há gente que pergunta: quanto tempo dura o estudo disto? Isto não é um estudo, é um estilo de vida, é um estilo de vida e trata-se de viver espiritualmente com tudo o que isto envolve. Naturalmente  que se uma pessoa consegue viver espiritualmente não vai perguntar: “ouve, quantos anos vou ter que viver espiritualmente? … pelo contrário, a pessoa vai dizer: “Oxalá possa manter sempre isto”, e o seu medo seria não poder seguir nisso, e não o ter que seguir.

Eu dizia que nisto do progresso espiritual uma das coisas importantes também é descodificar a própria vida, a própria circunstância vital. É distinta a própria vida do que é a circunstância vital: a própria vida é a vida em conjunto, na sua totalidade, e a circunstância vital são os episódios pelos quais temos que passar na nossa existência quotidiana. Os distintos episódios, às vezes duram muito, situações que podem durar meses ou anos, e outras que são breves de uma hora, de cinco minutos, um dia. Tudo isso temos nós que observá-lo e compreênde-lo, porque tem um significado; a gente não lhe encontra o significado, porque se cega com as próprias acções. Como o que o sujeito faz na sua vida diária é tão familiar, deixa de vê-lo; se um tipo começa a roubar, por exemplo, depois de um tempo roubar o vê tão natural, não lhe chama a atenção roubar, o encontra lógico, e o que lhe vai chamar a atenção é que outros podendo roubar não o façam.

Que coisas deve descodificar a pessoa na sua vida? Em primeiro lugar o que a pessoa faz correntemente e porquê o faz. É óbvio que se a pessoa trabalha em algo é porque necessita comer, não é certo?, mas porque o escolheu?, como chegou a esse tipo de trabalho, ou a esse tipo de actividade professional, pode ser empresário ou pode ter um emprego, uma actividade lucrativa, porquê num caso, porquê não, e noutro?, o que é que a vida o está a tratar de ensinar com isso? Há vezes que tudo o que parece vantagem pode ser uma desvantagem, ou tudo o que parece desvantagem pode ser uma vantagem; porquê é que um tipo é médico? … por exemplo, existiu um tipo no Chile muito conhecido, sobre quem se escreveu muito, Jaime Daltes, que era um médium, um tipo no qual se manifestava, segundo se diz, o espiríto de um médico alemão creio, algo assim, já falecido, e Jaime Daltes fazia curas e efectivamente curava pessoas. Então porquê?, como é que um tipo pode estar nessa circunstância vital tão estranha, qual seria o karma que tinha para que tivesse que emprestar o seu corpo para que alguém, uma entidade X actuasse através  dele para pagar outro karma inclinando-se sobre os problemas das outras pessoas? Porquê, um tipo, então, vai ser quem sabe  um modesto empregado num lugar e vai ser empregado toda a sua vida? Não tem nada de mau ser empregado, todo o trabalho enobrece a pessoa, mas esse tipo poderia não ser empregado, poderia ser independente ou poderia ser um professional brilhante o que sei eu, porquê essa circunstância e não outra?, o que é que a vida quer ensinar-lhe?. A gente tem que entender que quando se pega numa situação na vida … por favor escutem, quando uma pessoa fica presa a uma situação, é porque não quer compreender a lição. Ficar-se preso numa situação é o mesmo que repetir o curso; uma pessoa repete o curso quando não aprendeu a lição. Então fica no mesmo, no mesmo, e o mesmo. Analisem vocês em que coisas ficaram presos, que coisas repetem, em que coisas não poderam mudar, e essa é a lição que têm que entender, é nisso que têm que trabalhar. E, vão saber que tiveram êxito, quando compreendam o que a vida quer ensinar-lhes; vão saber que tiveram êxito, porque imediatamente vai mudar a situação, e vão-se desapegar, vão sair disso. Porque, por exemplo, há homens, mulheres que não foram muito bem numa relação de casal, ou no amor, e que procuram outras pessoas, por exemplo, uma mulher que está com um homem para classificá-lo de alguma forma, digamos esse homem é ABX, um homem tipo ABX; então à mulher lhe foi mal e não quer saber de nada com esse homem, e procura, procura e de repente encontra  outro  tipo, como é esse tipo? ABX. Não é de outra forma, mas com um disfarce diferente. ABX, mas muito bem disfarçado. Rompe com esse, porque tampouco dá certo. Deixa passar mais tempo, cinco anos, encontra outro ABX, que significa isso, coincidência? … pois. E como sabemos se há cinco encarnações está presa no ABX?; porque não quer aprender a lição. Se a pessoa aprende a lição, se compreende o que é que a vida lhe quer ensinar através disso, vai poder mudar essa circunstância; se não, a pessoa tem que resignar-se, dizer: “bom … não fui capaz de compreender, com resignação vou tomar isto e vou sofrê-lo com resignação nada mais, como um mal necessário”.  Mas não fazer como os meninos que acham que a culpa é do professor, que acham que a culpa é do sistema, que o ensino é mau, que o professor antipatiza com ele. Não, não é este o caso, não cabe supôr que Deus também tem antipatias, não é certo?, ou simpatias a Deus.

Depois, é muito importante no caminho espiritual recordar que coisa é esta vida, comprendê-la, dar-lhe nome a esta vida, catalogá-la. Eu sempre disse, para muitas pessoas esta vida é a casa de Irene, falemos dos homens. Havia que inventar um nome equivalente para as mulheres; mas o certo é que esta vida é uma  escola, esta vida é apenas um alto no caminho, é uma oportunidade para nos aperfeiçoarmos. A nossa vida é muito breve, é um suspiro apenas no nosso caminho e o objecto é aperfeiçoarmo-nos. Na medida em que a pessoa não faça isso, então, vai ter de reencarnar, reencarnar, reencarnar uma e outra vez milhares de anos e seguir presa nas mesmas coisas, até que quem sabe  se acabe a vida. Segundo tradições herméticas, já se acabou a vida antes sobre o planeta terra. A vida humana tal como a conhecemos e os livros sagrados hindus, os mais antigos, falam de rondas de vida, que a cada tantos anos se produz uma ronda de vida, ou seja, que há um tempo no qual essa humanidade pode evoluir e os que não evoluirem nesse tempo ficam para trás, e se dissolvem, se acabam, se reintegram na terra, ou o que seja; ou entram e repetem o curso, não é certo? agora, o mundo desde o ponto de vista material, quem são os materialmente mais poderosos no mundo?: os que repetem o curso, óbvio, os que repetem o curso em qualquer colégio ou na universidade são os que conhecem todo o ambiente, conhecem os profesores, conhecem toda a matéria, sabem o que há que estudar, estão no seu elemento. Agora, um tipo que repetiu o curso  três vezes, imaginem-se, se não as sabe todas; então há repetentes de curso neste planeta, os que não evoluiram antes e entraram noutra ronda, e ao melhor tampouco vão evoluir nesta ronda.

O estudante tem de descodificar a causa dos seus sentimentos habituais: porquê experimenta as emoções que tem habitualmente?, qual é o propósito, a causa dessas emoções?, que persegue com isso?, que coisa as gatilha e o que persegue? Sempre insisti na necessidade de fazer uma lista de emoções. Por exemplo, falando das mais elementares: raiva, alegria, frustração, decepção, ambição, cobiça, amizade, que sei eu, mas as coisas que realmente o tipo se dá conta que sente. Pode se inveja, pode ser raiva, pode ser depressão, tristeza, melancolia. Fazer uma lista de quais são as que o afectam de preferência, e depois, averiguar o que engatilha essas emoções, porque é que essas emoções se põem em movimento, para dar-se conta da sua mecanicidade. Sempre a tristeza se vai a engatilhar pelos mesmos elementos, as mesmas coisas, pelo geral, porque caiu a sua auto-estima. A tristeza está um pouco unida à depressão. Porquê é que a pessoa se pôs alegre? … supõe-se, que disto a que chamam estados de ânimo existiram teorias que estão relacionadas com os humores corporais; diz-se que os sujeitos melancólicos são biliosos, por exemplo, que isto está relacionado com a bilis, com a influência de certas vísceras. Mas, em todo o caso não é isto o que interessa, senão saber porquê uma pessoa é triste, porquê uma pessoa é inconformista, porquê uma pessoa é queixosa, porquê se queixa sempre, porquê uma pessoa não aceita o bom que tem; o que persegue com isso … procurar uma explicação; já que, não é porque sim. Os homens que não entendem a mulher, por exemplo, que de repente chegam a casa: “não …, mas …. Sim portei-me tão bem e tudo foi tão bonito e a minha mulher estava com a cara comprida que ninguém sabe de que”. Por algum motivo seria. Ou seja, tratar de entender porquê estava ela com a cara comprida, ver a lógica disso, que de certeza tem uma lógica. Não dizer: “ é porque é idiota” como dizem alguns.

Analizar as áreas nas quais se tem estado a fracassar, porque um não pode ter êxito em determinada área; pôr em claro o que é que um se propôs e tratar de descrever isso da forma mais completa possível. Fixem-se, de repente alguém pode dizer: “sim, eu me propûs ganhar mais dinheiro”, e crê que com isso está tudo dito. Ganhar mais dinheiro, isso é absolutamente vago. Como se propôs ganhar mais dinheiro? Como esperava ganhar mais dinheiro, quanto dinheiro e em quanto tempo?, que sacrificio ía fazer para isso?, qual ía ser a sua capacitação para isso?, qual ía ser o seu horário de trabalho?, como ía ordenar a sua vida o tipo?, o que estava disposto a dar por isso? Ou seja, fazer uma análise o mais extenso e profundo disso, para pôr em evidência o facto de que as pessoas se negam à vezes a aprofundar determinadas coisas. Já … por exemplo,  uma mulher pode dizer: “já … eu quero encontrar o homem da minha vida!”, e pronto, já se fica feliz com isso e nada mais. Diz “não, eu quero encontrar o homem da minha vida e estou a trabalhar internamente para isso”. Fantástico e ponto, nada mais. Bom, e … como quer a esse homem?, e quais são as qualidades que ela tem para encontrar a esse homem, para que esse homem se interesse por ela? O que é que ela oferece, o que é que está disposta a dar?, o que se vai passar quando encontre esse homem?, vai-lhe deixar o seu espaço ou vai a começar a apertar-lhe as “nozes”? Sabemos que quando a mulher se sente angustiada por medo de perder ao homem, porque essas são as incongruências destas situações. Uma pessoa sente-se angustiada por carência de algo, e quando tem isso, angustia-se por medo de perdê-lo. Como acontece à gente que tem muito dinheiro; também se angustiavam quando não tinham dinheiro e quando têm muitas coisas angustiam-se pelo medo de perde-las . Especialmente os que têm dinheiro investido em acções, por exemplo, estão todos os dias a olhar a flutuação da bolsa e se lhes dá a volta ao estômago de repente quando começam a cair as suas acções. Então, a mulher deseja ter um homem num dado momento, e quando o tem, pode sentir a angústia de perdê-lo. Porquê? … porque produz-se um certo nível de dependência, o qual é lógico. Mas essa angústia a leva a ser mais dominante, o que eu em tom leviano chamo “apertar a nogueira”. È como pôr condições, não é certo?, é ser mais controladora com o homem, e naturalmente o homem se incomoda com isso, ainda que não se dê conta, algo percebe e se incomoda. E todas essas coisas a mulher as tem que ter presente na hora de desejar isso. Não pode ser a coisa assim tão voada, como assim, “já, quero tal coisa e ponto”. Não pois. Que mérito tenho eu para conseguir isso? Imaginem-se que alguns de vocês disseram: “já, eu quero ser presidente do Chile” ah … perfeito, porque não. Mas, vamos ver, que méritos tens para seres presidente?, … conta-nos … vamos ver, és um bom orador? … para poder falar à gente de maneira entusiasmada, de maneira que a gente te entenda. O que sabes para organizar um país? Bom, e o tipo começa a analizar e na realidade não tem condições para ser presidente, lhe fica o oposto grande quem sabe? Provavelmente, e não é que ser presidente de uma nação requeira de habilidades especiais, mas bem eu diria que quem sabe o mais importante é o critério, porque o presidente de uma nação não necessita ser técnico em coisas muito importantes, para isso, rodeia-se de uma equipa adequada. O que sim tem que ter é sentido comum e critério.

Para cada pessoa, então, a sua análise dos fracassos, a sua análise das realizações, é muito importante. Saber por que realizou tal coisa. Também o que é que fez para conseguir realizar tal coisa; porque realizou isso e não conseguiu realizar a outra coisa; E sempre perguntar-se: o que é que a vida me quer ensinar?, o que é que me está a mostrar a vida? Essa é a pergunta chave. Se uma pessoa chegou aqui ao instituto, porquê cheguei ao instituto … a vida o trouxe aqui, está a premiá-lo. A vida disse-lhe. “chegou o momento que faças tais ou quais coisas”. A pessoa saberá como manejar isso. Recordem-se de que estamos a falar de descodificar a própria circunstância vital. Não importa o que a um lhe passe, todos os dias se estão a passar coisas mais ou menos diferentes. Porquê? … analizar isso. Tudo tem uma explicação sempre, tudo tem uma causa lógica, concreta. Por meio desta descodificação a pessoa se torna mais flexível. A pessoa  vê a importância de compreender uma lição, de aceitá-la e assumir aquilo, e quando o faz, o faz de coração, e assume aquela lição. Muda a sua vida, quero dizer, passa a outra coisa, e assim sucessivamente, produz-se o progresso espiritual, sempre compreendendo as  situações que nos afectam, e que não as vemos, que somos cegos, coisas para as quais somo cegos. Eu comentava, por exemplo, o que se passa quando chamamos a atenção a pessoas da escola sobre determinados problemas que têm, sobre determinadas coisas que estão a fazer mal, e as pessoas em vez de se abrirem, defendem-se, põem um escudo, põem-se mais cegas, e então ficam agarradas nisso … em vez de avançar vão ficar agarradas.

Recordo-lhes então, que esta noite façam o exercício de pensar que deixam de ser um corpo físico, deixam de ser uma pessoa, que são pura energia, energia  gasosa ou energia eléctrica, como queiram, que esta energia sai do planeta terra, vai para o espaço, e que desde o espaço observa a terra, sem nenhum interesse individual ou pessoal.

Por hoje chegamos até aqui somente.

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